Os Tijolos - Família Relatividade

Relatividade

1. Qualidade ou estado de relativo.

Relativo:

1. Que indica relação; referente, respeitante, concernente.

2. Julgado por comparação; proporcional.

Preste muita atenção nessa definição: julgado por comparação. Repita em sua cabeça: julgado por comparação. Se quiser, em voz alta: julgado por comparação.

Agora podemos começar.

Você precisa urgentemente comprar um carro para usar em seu novo trabalho. Inicia a pesquisa por seminovos e encontra uma opção por dez mil reais. O carro, porém, encontra-se em condições ruins de conservação. Você, claro, desejando algo melhor, procura alternativas em outras lojas, encontrando ofertas similares por 10 mil, 11 mil e 13 mil. O problema: todos estão em péssimas condições. Como péssimo é pior que ruim, você corre de volta à primeira loja para arrematar aquela que, agora, passou a ser uma excelente oferta.

Pensemos. Por que uma opção passou de ruim a excelente? Porque ela foi comparada às demais. Essa comparação concede à relatividade o poder quase milagroso de transformar coisas ruins em coisas boas.

Obs.: Por conta desta última frase, lembrei-me da postura ativa e consciente que discutimos no tijolo otimismo.

– Não deixa de fazer sentido, Álvaro, mas me parece que você “forçou um pouco a barra” nesse exemplo.

Hum… Acha mesmo? Veja isto:

Você certamente considera que o arrependimento não é uma sensação agradável. Mas ele só não é agradável porque ocorre após o erro. Imagine se o arrependimento pudesse ocorrer antes do ato infeliz, especialmente de forma a evitá-lo. Não seria algo agradável?

– É, agora, sim, forçou a barra…

Viu só como é relativo? Você tinha achado isso do exemplo anterior. Já mudou de opinião ao compará-lo com o último…

Obs.: E para azucrinar ainda mais a sua ideia, sou da opinião de que, sim, o arrependimento que precede a ação existe, só que com outro nome: sabedoria. Um dia a gente conversa mais sobre isso.

A relatividade se aplica também não só ao número de opções disponíveis, mas às circunstâncias. Um nome estranho para um menino não faz sucesso nos primeiros anos da escola, mas pode se transformar em imponente e austero som na vida adulta caso ele se torne referência pelo sucesso alcançado em alguma área.

Voltemos, agora, a falar de dinheiro, buscando denunciar duas falhas de relatividade que as pessoas costumam cometer no campo das finanças: (1) valores absolutos em montantes muito grandes e (2) valores percentuais em montantes muito pequenos.

Um exemplo do problema com valores absolutos muito grandes. Eu digo que uma empresa gastou R$ 5.000,00 na nova cadeira do presidente. Você acha absurdo. Mas se eu disser que o orçamento destinado à reforma da sala da presidência era de meio milhão de reais, você perceberá que apenas 1% do valor foi gasto com a cadeira. Não parece tanto assim e, possivelmente, você já tenha gasto um percentual bem maior comprando uma cadeira para si mesmo quando da implementação de um escritório, por exemplo.

O correto, dado o grande montante destinado à reforma, é analisar discrepâncias – ou seja, fazer julgamentos – utilizando percentuais, porque, se um orçamento de meio milhão para a reforma de uma sala já é um absurdo, os valores destinados a todos os subitens também serão. Se você, com o orçamento em mãos, for o encarregado de cuidar desta reforma e resolver economizar algo perto de uns quatrocentos mil, talvez seja demitido, mesmo cheio de boas intenções.

Agora, para exemplificar o problema dos valores relativos muito pequenos, observe esse hipotético discurso corporativo:

“Como proprietário desta empresa venho dizer que estou muito feliz por termos alcançado a meta estabelecida para este ano, que era dobrar o número de clientes. Tínhamos um, agora temos dois!”.

Aqui, temos a situação inversa. Como o valor é muito pequeno (um único cliente) o correto seria avaliar o crescimento em números absolutos, não em percentuais.

O mesmo caso acontece com um salário que, durante dois anos consecutivos, teve aumento de 20%, enquanto que a inflação não passou de 6% ao ano no mesmo período. Não há dúvida que, percentualmente, tratou-se de um substancial aumento, exceto pelo fato de que o salário, que era de 200 reais, passou a 240 e, depois a 288. Os dois aumentos percentuais consecutivos bem acima da inflação definitivamente não fazem de R$ 288,00 mensais um bom salário.

Obs.: Isso nos permite compreender por que muitos salários são baixos. Agindo assim, o empregador pode manter uma eventual correção anual percentual e continuar pagando pouco durante um bom tempo. Esta constatação nos leva ao reforço de por que é tão importante perseguir a Única Condição. Quando você se torna mais importante para a empresa do que ela é para você, não há meios de o seu salário ser baixo.

Um último exemplo nos mostra a ideia de relatividade com valores absolutos e percentuais. Eu lhe peço um favor. Você me faz o favor e, com a sua ajuda, faço uma transação financeira e ganho R$ 10.000,00. Passo depois na sua casa e lhe entrego um cheque de mil reais como forma de agradecer pela gentileza. Você fica feliz.

O mesmo ocorre dois meses depois. Você me faz um favor parecido e, após alguns dias, lá estou eu com o seu cheque de R$ 1.000,00. Você deveria estar feliz como da primeira vez, mas não está, pois ficou sabendo que, desta vez, a transação me rendeu mais de oitocentos mil reais.

Não passa pela sua cabeça a ideia de que, dessa vez, sua gratificação poderia ter sido um pouco maior? Quem lhe dá essa sensação é a incorreção do valor absoluto (1 mil) no montante muito grande (800 mil). Se fosse utilizado o mesmo percentual da primeira transação (10%), você teria recebido 80 mil e, possivelmente, não estaria chateado.

Uma atenta observação da relatividade nos faz perceber o óbvio: o caráter relativo se opõe ao caráter absoluto. Se você só dispõe de uma opção, ela é absoluta, assim como são absolutas suas características, pois não há com o que compará-la. Lembre-se de quando examinamos a definição de alternativa: opção entre duas ou mais coisas.

Por esta razão, a relatividade tem a capacidade de alterar julgamentos, pois são adicionadas possibilidades que lhe fornecem meios de comparação. Essa é uma reflexão das mais importantes, pois, uma vez que ninguém gosta de escolher o pior para si, você passará o resto da vida fazendo julgamentos a respeito de tudo. E é bom ter a relatividade como aliada neste processo.

Mas os benefícios não terminam aqui. Como tudo se encaixa, ao trilhar o caminho da relatividade você estará mais apto a compreender – e, preferivelmente, a exercer – o desapego, nosso próximo tijolo.

Para finalizar, retomo uma história que usei no item filtro e que, agora, possui um novo objetivo: dar um duplo exemplo de relatividade. Vou reproduzir o trecho:

“No livro Um estudo em vermelho, de Arthur Conan Doyle, a história mostra, na primeira parte, um caso típico de Sherlock Holmes: o desvendamento de um assassinato. Ao ler, você naturalmente se compadece da vítima, maldizendo o assassino. Porém, na segunda parte, é narrado um período anterior a esse, mostrando que as duas pessoas (vítima e assassino) já se relacionavam anteriormente. Quando você descobre o que a vítima aprontou, seus sentimentos começam a ser reavaliados e você se vê inclinado a dar razão para o assassino.”

O primeiro exemplo de relatividade você consegue perceber, pois é intrínseco à história. Após terem sido oferecidos elementos para comparação, o que antes era um comportamento condenável – um assassinato – começa a apresentar justificativas.

O segundo exemplo refere-se à minha atitude de ter feito algo que eu mesmo condeno e que, por isso, normalmente não faço: contar o segredo de uma história. Desde já peço desculpas. Eu poderia até dizer que foi tudo em nome da sua liberdade, mas seria forçar novamente a tal da barra (apesar de ser um ótimo argumento)…

A verdadeira razão é menos hipócrita. Por um lado, eu posso ter “estragado” sua possível leitura. Mas, por outro, posso ter despertado em você o interesse por um autor com o qual talvez jamais viesse a ter contato.

Sendo assim, se foi bom ou ruim eu ter contado… depende.

E, se depende, é porque é relativo.


Próximo Tijolo: Desapego.

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